O seu sorriso de dia, com os olhos brilhantes e passos seguros na direção certa, mostrava um homem convicto e firme de seu mundo…
Os mesmos passos que eram os primeiros a vacilar quando fechava a porta e se via na solidão do seu mundo real.
Os olhos vagavam pela solidão e pelo silêncio dos cômodos. O vento frio, de um inverno sem fim, adentrava pela janela e esfriava ainda mais as partes soltas do apartamento. A pia emitia o único som, pingando incessantemente sobre um prato a lavar, criando um lago que já estava maior do que sua paciência suportava.
Encarou toda a sala e lembrou das vozes e gargalhadas que já ecoaram ali. Das confissões e segredos trocados no âmbito daquele seu mundo. O protetor de todo aquele império de faz de conta. Sorriu amarelo com a quantidade de histórias, boas e ruins, que poderiam ser contadas sem sair daqueles poucos metros quadrados – sem sair de verdade para o mundo de fora.
Tentou vagar pelos canais de TV, sem que nenhuma atração surgisse. Tomou um banho demorado apenas para gastar um tempo que não queria contar e vestiu a primeira roupa que viu na pilha das lavadas.
O sol já havia ido embora e as buzinas dos carros diminuíam sua algazarra. Ele odiava o silêncio. Era nele que seus pensamentos gritavam por liberdade, gritavam por alguém perto, mas ninguém ouviria suas lamentações ou loucuras. Ninguém queria ouvir isso. Ninguém iria querer chover mais no molhado que as mesmas queixas de tantos outros…
Saiu para buscar o jantar pelo bairro, tentando se perder em alguma viela ou nova paisagem, ouvindo fragmentos de histórias dos moradores, pois usava isso para se divertir e criar novos enredos, finalizando com o que sua imaginação quisesse. Criava mil histórias apenas ouvindo um lamento solto na rua.
Quando retornou, o frio era maior e começava a incomodar mais que de costume. Havia esquecido a sacada aberta e foi ali que paralisou ao varrer o prédio da frente…
A luz acesa, o sorriso bonito, a ideia de calor, a música embalando todo aquele momento com total sintonia. Tudo parecia certo e combinado com seus antônimos. A mesa arrumada, a comida ainda quente e ela sentada, desfrutando de tudo isso. Não conseguia ver seus olhos muito bem de onde estava, mas supôs que carregavam um brilho de felicidade e alegria pura. Daquelas alegrias quase infantis, ingênuas e poderosas.
Refez o mesmo ritual no outro dia e, quando deu por si, havia passado uma semana admirando a vizinha da frente com seu jantar. Modificou seu horário, refez sua agenda, alterou atividades antigas para que coincidissem com o jantar dela. Era sua fuga da rotina, da solidão que assolava seu apartamento, do inverno que parecia ter ido embora há muito tempo. Ali, admirando a nova rotina, sorria ao pensar no nome da vizinha e em qual rima faria para unir com o seu.
Justo ele, que fazia mil histórias com um simples lamento solto na rua, ainda não conseguia criar um laço novo para a maior das curiosidades dessa nova história que vivia – além de ser seu maior medo e desilusão: a mulher sempre jantava sozinha, mas a mesa estava sempre arrumada para duas pessoas…
Conte-me algo aqui...