Uma semana inteira se passou com aquela pergunta martelando a minha cabeça. Me vi cuidadosamente estudando e repensando em todas minhas atitudes corriqueiras da semana, mas ainda assim “por que você precisa tanto que eu saiba disso?” martelava a minha consciência…
Na terça-feira, por um problema no trabalho, ajudei um colega da equipe a rever todo o código do sistema até as duas da manhã. No meio disso tudo, ouvi os desabafos dele sobre o divórcio, dei conselhos lógicos e precisos e senti, depois de toda essa conversa, uma genuína melhora no estado mental dele. Ele me abraçou no final da jornada, disse que eu era uma “rocha impenetrável” e “o cara mais centrado que ele conhecia”. Eu sorri com a minha máscara polida e profissional, mas por dentro, o eco da palavra “arrogante” dita pelo terapeuta dias antes rasgava minhas vísceras.
Eu não ajudei aquele cara porque o amava. Eu ajudei porque simplesmente eu não era o cara quebrado. E sempre tinha sido assim. Não era arrogância ou pontos no meu currículo técnico, apenas a pura necessidade de manter o controle na vida cotidiana. Voltei àquele consultório na semana seguinte não para me curar, mas para restabelecer a minha supremacia.
Entrei na sala para a terceira sessão sentindo uma eletricidade diferente no ar. Eu tinha passado os últimos sete dias reconstruindo minhas paredes. Sentia que tinha perdido o controle da narrativa na semana anterior e precisava recuperar o território. Sentei-me com a postura ereta, quase militar.
O terapeuta ajustou os óculos e foi direto ao ponto:
— Seja bem-vindo à nossa terceira sessão. Notei que você entrou de cabeça erguida hoje, quase com uma postura militar. Presumo que o ‘momento de vulnerabilidade’ da semana passada tenha te incomodado bastante nos últimos dias. O que foi? Sentiu que perdeu o controle e veio aqui hoje para recuperar o território?
Eu respondi, fingindo indiferença, embora meu coração estivesse acelerado:
— Nada… É porque faltou uma última frase da última sessão… matutei uma semana para isso, mas calma. Eu não paguei preço ou virei as costas para os meus amigos e pessoas próximas de mim. Eu continuei sendo a mesma pessoa: presente, amigo, confidente, auxílio… Ajudei fisicamente, financeiramente e tudo mais. Eu só decidi não contar os meus problemas… não por ser “egoísta”. Mas porque eles não deveriam saber e nem tinham que saber. E isso tudo talvez sim tenha “embolorado” por dentro, mas o exterior ainda era a mesma cara “militar e decidida” que você acaba de ver.
O terapeuta soltou um suspiro longo, tirou os óculos e massageou a ponte do nariz. Ele parecia genuinamente cansado da minha resistência.
— Você é um homem incrivelmente generoso. Um santo, praticamente — o tom dele voltou a carregar uma ironia cortante. — O amigo perfeito, o confidente infalível, o esteio financeiro. Você dá tudo de si para o mundo… exceto a única coisa que realmente importa em uma relação: a verdade de quem você é. Você acha que estar “presente” é pagar a conta ou dar um conselho lógico. Mas o que você faz é uma das formas mais refinadas de arrogância que existem. Quando você decide que eles “não deveriam saber e nem tinham que saber” dos seus problemas, você não está protegendo ninguém. Você está se colocando em um pedestal, acima deles. Como se você fosse o único forte o bastante para carregar o peso do mundo, e eles fossem fracos demais para suportar a sua dor.
Aquelas palavras bateram como um soco no estômago, mas recusei-me a demonstrar o impacto.
— Essa “cara militar e decidida” não é a sua força. É a sua covardia disfarçada de altruísmo — ele continuou, implacável. — É muito mais fácil ser o herói resolutivo dos outros do que ser o homem quebrado que precisa estender a mão. Você passou uma semana matutando uma resposta para o nosso debate. Uma semana inteira para polir a sua armadura. Parabéns pelo roteiro. Mas me diga: até quando você vai sustentar esse teatro de que está tudo bem por fora, enquanto o seu interior está, nas suas próprias palavras, “embolorado”? Você veio aqui para consertar o mofo ou só para que eu elogie a pintura da parede?
— Eu disse que “talvez” estivesse embolorado — corrigi imediatamente, agarrando-me à precisão das palavras como uma boia de salvação. — Eu não sinto isso. A ferida do amar já passou, mas você perguntou, se não me engano, a origem disso tudo. Talvez, e note o talvez, tenha sido o gatilho, mas não o que está acontecendo hoje.
O terapeuta colocou os óculos de volta lentamente, encostou-se na poltrona e me olhou com um sorriso frio.
— Ah, o “talvez”. O maravilhoso, elástico e seguro “talvez”. Como eu pude esquecer? Você não disse que estava embolorado, você apenas levantou uma hipótese metafórica sobre o mofo. Minha falha. Você percebe o que está fazendo aqui há três semanas? Você joga uma bomba emocional na mesa — “eu amei de chorar, de ficar sem comer” —, espera para ver a minha reação e, no segundo seguinte, dá um passo para trás, limpa o terno e diz: “Imagina, isso já passou, foi só um gatilho, eu não sinto nada”. Você trata os seus próprios sentimentos como se fossem um relatório de TI ultrapassado. “A pane no sistema ocorreu em anos anteriores, o bug foi isolado, a máquina segue operando”. Você não quer terapia. Você quer um espectador. Você veio aqui para demonstrar como a sua engenharia mental é superior à dor humana comum. Se a ferida já passou, se você é o pilar inabalável dos seus amigos, e se tudo o que eu aponto é rebatido com um “talvez”, eu te pergunto, com toda a racionalidade do mundo: o que nós dois estamos fazendo nesta sala?
A pergunta ecoou pelas paredes do consultório. A máscara estava pesada demais. O cansaço de manter aquela estrutura perfeita começou a desabar sobre mim. Olhei para o chão, despido de qualquer argumento lógico.
— O meu presente é rotineiro e bem enfadoso — confessei, a voz caindo para um sussurro. — E te digo que talvez seja todos os medos juntos.
O terapeuta inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. O tom de voz dele diminuiu, perdendo a acidez e assumindo uma gravidade cirúrgica.
— “Todos os medos juntos”… Olha só… uma fresta de verdade. Sem metáforas de TI, sem o escudo do “todo mundo”, sem a pose de provedor invulnerável. Apenas um homem admitindo que a rotina enfadonha que construiu é, na verdade, o tamanho exato do medo que ele tem de viver. Um tédio planejado para que nada de novo saia do controle. Para que você nunca mais precise amar a ponto de parar de comer, mas também nunca mais precise sentir nada. Nossa terceira sessão termina com essa frase. E eu quero que você guarde esse eco. Pela primeira vez, você não trouxe uma resposta pronta; trouxe um diagnóstico real.
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