Ela não partiu por falta de afeto, mas por uma fome de mundo que o amor dele não conseguia saciar. O “nós” havia se tornado um jardim bem cuidado, mas ela queria o gosto do asfalto…

Ele era como o porto, mas ela tinha pressa em ser o naufrágio. Enquanto ele planejava o amanhã com a calma de quem sabe o que espera do tempo — esse elemento impossível de prever —, ela organizava o caos dentro de uma mochila gasta, mas sedenta de histórias. Escolhia apenas o que era essencial para uma vida que ainda não tinha nome e para a ansiedade da vertigem do não saber. Ela queria o direito de errar, de passar frio, de sentir o gosto metálico do medo que só o desconhecido proporciona sob as luzes de uma cidade estranha.

Ao cruzar a fronteira da cidade, o silêncio do rádio foi preenchido pelo som da sua própria respiração, acelerada e viva. Ela não sabia o que encontrar, mas buscava as tão sonhadas “ruas mortas” — aquele não-lugar tão descrito e imaginado, onde ninguém sabia seu nome ou sua história, e ninguém esperava sua volta para o jantar. Entre luzes de neon baratas e o cheiro de café requentado em balcões de estranhos, ela encontrou a insanidade da inquietude que tanto buscou. A cada passo em um endereço novo, sentia que estava desidratando o passado para que ele não pesasse na bagagem, preenchendo-a com algo que ela nem sabia se duraria uma estação. Mas para que se importar?

O perigo, para ela, era um tônico. Um oásis de paz bem ao pé de um furacão iminente. Ela desejava a “não proteção”, a exposição total aos elementos e à indiferença alheia. Havia uma beleza mórbida em se sentir vulnerável, em não ter para onde correr caso a chuva apertasse ou a noite se tornasse longa demais. Trocou as promessas de fidelidade pela promessa da descoberta, acreditando fervorosamente que a segurança era apenas uma forma lenta de morrer. O desconhecido não a assustava. Mesmo colecionando alguns hematomas emocionais, o que a apavorava de verdade era a ideia de que o resto de sua vida seria exatamente igual ao dia anterior, e ao anterior, e ao anterior também…

Escolheu um jeito doloroso de partir, ignorando súplicas e deixando perguntas sem respostas sobre a mesinha de centro abarrotada de ingressos e passagens baratas. Ela simplesmente seguiu para um horizonte que nunca alcançaria — e, nesse “não alcançar”, vivia a sua paz. Lá estava ela, sob uma máscara de liberdade que a impedia de olhar para trás e ver o rastro de destruição deixado no espelho retrovisor. Para ela, naquele momento, a traição não era contra ele, mas contra a sua própria sede de existir. Ela não era má, era apenas urgente. Não havia maldade em seus atos; ela era apenas uma força da natureza que não sabe como parar sem antes colidir com algo maior que si mesma.

Deixou tudo para trás com a convicção de que a vida só acontece quando estamos dispostos a perder tudo o que temos. A cada quilômetro de distância, sentia-se mais leve, como se o compromisso fosse uma gravidade da qual tivesse finalmente escapado. Não sabia ao certo o que procurava, mas tinha a certeza absoluta de que o que buscava estava no seu próximo destino…