Uma semana depois e a sensação de invasão da primeira consulta ainda ecoava. Sentei-me na mesma poltrona de couro marrom. O terapeuta me observou em silêncio por alguns instantes, cruzando os braços. O tom dele hoje começou ligeiramente mais afiado.
— Olha só, você voltou. Achei que seu pragmatismo ia vencer o contrato de quatro sessões e você inventaria uma desculpa técnica para faltar. Sentou exatamente na mesma poltrona… Pensou no nosso “não sei” da semana passada ou passou os últimos sete dias criando novas teses para me provar que o mundo está errado?
— Eu continuo simplesmente não sabendo — respondi, mantendo a voz plana, sem qualquer inflexão emocional.
— É uma resposta conveniente — ele rebateu de imediato, inclinando-se para a frente. — O “não sei” é o esconderijo perfeito, não é? Se você não sabe de nada, não precisa mudar nada, não precisa se responsabilizar por nada e, principalmente, não precisa sentir nada. Mas vamos ser honestos: um homem com a sua capacidade intelectual e a sua articulação não passa sete dias no piloto automático sem pensar um segundo sequer naquilo que o incomodou aqui. Você não continua “simplesmente não sabendo”. Você continua simplesmente escolhendo não me dizer. Qual é o medo? Se você me contar o quequelas pessoas dizem sobre você, eu vou ter material real para trabalhar e o seu personagem de incompreendido vai começar a desmoronar?
A provocação me tocou em um ponto sensível. Ele achava que era capricho. Busquei o vocabulário que me dava segurança todos os dias, a linguagem onde tudo tem causa, efeito e documentação.
— Eu sou de TI — argumentei, pontuando as palavras com o dedo. — Quando falo “não sei”, eu preciso investigar, analisar trocentos lugares e tentar entender a lógica disso tudo. Quando digo “não sei” e continuo com o “não sei”, é porque simplesmente eu não sei que ferramentas eu tenho ou o que tenho para buscar as respostas. Não é um bloqueio intencional. É falta de diagnóstico.
— Entendi. Peço desculpas, esqueci que estava lidando com um engenheiro de software, não com um ser humano.
O sarcasmo dele cortou o ar como uma lâmina fria. Eu pisquei, surpreso com a agressividade direta.
— Mas vamos usar a sua metáfora, já que você prefere a linguagem dos códigos — ele continuou, a voz firme. — Se você está diante de um bug no sistema e diz “não sei”, você não cruza os braços e espera o programa se consertar sozinho. Você abre o terminal, roda os testes e procura a linha de código que está quebrando o sistema. O problema aqui é que você está fingindo que não tem as ferramentas, quando na verdade, você só está se recusando a digitar os comandos. Você sabe exatamente onde o sistema está falhando. Sabe quais “rolos” românticos terminaram por causa do mesmo padrão, sabe quais colegas de trabalho evitam almoçar com você e sabe quais amigos se cansaram de tentar atravessar essa sua parede de lógica. Você tem o log de erros bem aí na sua frente. Mas investigar dá trabalho e exige encarar o fato de que o bug está na sua própria programação, não no resto da internet. Então, vamos lá: qual foi a última linha de código emocional que quebrou na sua vida antes de você vir parar aqui?
O silêncio desceu sobre a sala, pesado e sufocante. Pensei nas noites em claro, no silêncio do meu apartamento, no peso de um fantasma que eu tentava deletar da memória todas as manhãs.
— Talvez foi quando eu amei — soltei, antes que a lógica pudesse me impedir.
O terapeuta parou. O cinismo dele desapareceu instantaneamente. Houve uma pausa longa, densa, onde ele pareceu absorver o peso real daquela confissão. Ele se inclinou ainda mais, mudando o tom para algo quase íntimo.
— Ora… Parece que finalmente encontramos uma linha de código que não é puramente racional. Para um pragmático que passa a vida calculando riscos e sobrevivendo sem romantismo, admitir que “amou” é quase como confessar um erro fatal de sistema. O amor é terrivelmente ineficiente, imprevisível e não aceita comandos de controle. Quem foi essa pessoa que conseguiu hackear a sua segurança? E o que aconteceu quando o sistema caiu?
Olhei para ele. O pânico de ter me exposto tanto subiu pela minha espinha. Senti que tinha entregado a chave do meu castelo. Recuei imediatamente, forçando um sorriso de canto de boca, o mais corporativo e cínico que consegui simular.
— Eu não sei. 🙂
O terapeuta soltou uma risada curta, seca, e recostou-se na poltrona, cruzando os braços com uma pitada de incredulidade.
— Esse sorriso de canto de boca entrega o jogo. Você achou que tinha me entregado uma pista real, mas na verdade só jogou uma isca para depois puxar a corda de volta. É o seu truque favorito, não é? Dá um passo à frente só para saborear o prazer de dar dois para trás. Você usa a palavra “amar” porque sabe o impacto que ela tem… Mas aí se esconde como se estivesse fechando a janela de um chat. Faltam dez minutos para acabar a nossa segunda sessão. Você quer continuar brincando de esconde-esconde com as suas próprias memórias ou vai ter a coragem de me dizer o nome da pessoa que te fez usar a palavra “amar”?
— Não é um chat. Nunca um chat. É preservação, não acha?
— Preservação? Ou covardia? — rebateu o terapeuta, com o tom de quem desmascara um disfarce grotesco. — Porque quem ama de verdade não fala com essa frieza de quem está lendo uma nota fiscal. Ou será que esse ‘amor’ foi só mais um cálculo mal feito que você prefere fingir que existiu para se sentir humano?
Aquilo foi o limite. A raiva finalmente quebrou a minha compostura.
— Eu amei de verdade! — curvei-me para a frente, a voz subindo de tom, trêmula. — Amei de chorar! Amei de me entregar! Amei de tipo ficar sem comer! Você não me conhece e ninguém tem ideia do que se passa, porque não sou niilista ou qualquer outra coisa… eu simplesmente sigo uma ideia de não mostrar minha vida para um mundo exterior. O que é meu, é meu!
O terapeuta me encarou por alguns segundos em silêncio após o meu estalo. O ambiente parecia ter mudado de temperatura. Ele suspirou lentamente.
— Eu acredito em você. De verdade. E peço desculpas se fiz parecer que o seu sentimento era uma piada ou um blefe. Dá para ver no seu olho que essa ferida é real e que o tamanho da sua armadura é exatamente proporcional ao tamanho da entrega que você teve lá atrás. Mas perceba a ironia da sua própria frase: “O que é meu, é meu”. Você sofreu, chorou, parou de comer e guardou tudo isso em um cofre forte dentro de você. Trancou a sete chaves. E aí, quando o mundo exterior começou a bater na porta desse cofre, você preferiu virar as costas para eles. Você escolheu pagar um estranho para manter o cofre fechado. Manter o que é seu apenas para você não é pragmatismo. É um exílio voluntário. Você está guardando esse amor e essa dor como se fossem relíquias, mas eles estão mofando aí dentro e intoxicando as suas relações de fora. O nosso tempo de hoje acabou. Mas eu quero que você leve uma pergunta para a semana que vem: se o que é seu é só seu… por que você precisa tanto que eu saiba disso?
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