Ali estava em minha primeira sessão. Me ajeitei da melhor maneira possível e não pude deixar um leve sorriso irônico brotar no meu rosto. Eu jamais me imaginei naquela situação…

Ele conferiu tudo e começou da maneira habitual. Sem forçar amarras, criando um ambiente seguro, acendendo todas as luzes possíveis para demarcar os limites do ambiente e tudo aquilo que eu já tinha feito inúmeras vezes, mas para diferentes resultados e propósitos. No fundo pragmático, pessoas, máquinas e animais são praticamente o mesmo e seguimos o mesmo “manual” para nossas ações e relacionamentos.

A primeira pergunta real eu já esperava. Na verdade, a pergunta é o simples “O que te traz aqui?” que às vezes pode se maquiar de diferentes maneiras, mas a raiz é sempre essa.

A realidade é que eu não sabia exatamente o que fez eu estar ali, logo comecei o jogo de personagem que eu havia criado. Respondi que não sabia e todo o resto me havia jogado naquela situação porque alguma mágica existiria e eu sairia melhor do que comecei…

— Entendo. O famoso ‘fui empurrado’. É bem comum as pessoas virem mais pelo desejo dos outros do que pelo próprio. Mas, já que você aceitou o empurrão e pagou pelas sessões… O que você acha que esse “todo mundo” está vendo em você que você mesmo prefere ignorar? — disse ele me desafiando, ainda calmamente e sem anotar grandes coisas.

— Talvez meu pragmatismo? Talvez minha forma racional? Talvez meu jeito direto de ver o mundo?

— Ou talvez o uso dessas palavras bonitas para justificar o fato de que você é simplesmente um tanto intragável no dia a dia. É uma possibilidade… ‘Pragmatismo’ e ‘racionalidade’ são ótimos escudos, concorda? Facilitam o trabalho de manter as pessoas a uma distância segura. Mas me diz uma coisa: se esse seu jeito direto de ver o mundo funciona tão bem assim, por que a opinião desse “todo mundo” pesou o suficiente para fazer você sentar na minha frente hoje?

— O mundo é intragável, não somos especiais. Fazemos o que precisamos fazer. Você não está aqui porque ama seu trabalho — você está aqui porque precisa… Precisa pagar as contas, precisa sobreviver, precisa aguentar um “intragável” como eu para poder seguir seu “progresso”. Sou exatamente igual. Eu acordo para sobreviver ao dia seguinte — sem romantismo ou qualquer outra palavra floreada que as pessoas normalmente usam para transformar algo necessário em algo belo e super imponente…

E assim começamos a batalha em diálogos e justificativas que florearam e bloquearam diversas paredes e possibilidades.

O tic-tac do relógio de parede parecia competir com o som da minha própria respiração. Era um som estúpido, rítmico, irritante. Olhei para o pulso esquerdo de forma deliberada, girando o botão da camisa para garantir que ele captasse o gesto.

— Eu achei que tivesse pago por uma hora de consulta. Mas sinto que estamos apenas deixando o tempo correr… — disparei, quebrando o silêncio que o homem do outro lado tentava costurar.

O terapeuta tirou os óculos lentamente. Havia um meio sorriso no canto dos seus lábios que me incomodou imediatamente. Não era um sorriso de deboche, era pior: era o sorriso de quem achava que tinha me decifrado.

— Você pagou por uma hora inteira. E ainda restam exatamente vinte minutos — ele disse, recostando-se na poltrona. — É fascinante como o seu pragmatismo funciona perfeitamente para cobrar o relógio e o valor do investimento, mas falha em perceber o óbvio: você passou os primeiros quarenta minutos tentando me convencer de que não se importa com nada disso. Mas quem foi que me julgou como intragável foi você, não?

Ajeitei-me na poltrona, cruzando as pernas. Senti um calor sutil subir pelo pescoço, mas mantive a voz sob controle absoluto.

— Eu propus uma hipótese baseada no que “todo mundo” diz sobre você — ele rebateu, sem piscar. — Quem vestiu a carapuça e transformou isso em um debate sobre a minha profissão foi você. Mas você tem razão em um ponto: foi uma provocação. E veja que interessante… você não se defendeu dizendo “eu não sou intragável”. Você preferiu se defender atacando o mundo inteiro. É muito mais fácil dizer que o planeta é hostil do que admitir que, talvez, você afaste as pessoas antes que elas tenham a chance de se aproximar. Restam quinze minutos. Vai continuar medindo forças comigo ou quer falar sobre quem é esse “todo mundo” que te mandou para cá?

— Todo mundo é uma maneira figurativa de dizer “as pessoas ao meu redor” — expliquei, gesticulando de leve para dar um tom de obviedade. — Amigos, rolos românticos e colegas de trabalho. E eu nunca te ataquei. Eu fiz um comparativo de situações… e são pontos de vista. Existe erro nisso?

O terapeuta suspirou, colocando os óculos de volta sobre a mesa. O olhar dele ficou mais denso.

— Erro? Nenhum. Do ponto de vista puramente lógico, é um argumento impecável. Mas aqui não é um tribunal para julgarmos erros e acertos, e sim um consultório. O que me chama a atenção não é a estrutura do seu argumento, mas o esforço que você faz. Você não me atacou explicitamente, concordo, mas montou uma trincheira. Quando eu pergunto sobre as pessoas ao seu redor, você me devolve uma tese de sociologia sobre como o mundo funciona. É um mecanismo brilhante. Se debatermos o “ponto de vista”, passamos os quinze minutos restantes discutindo filosofia e você sai daqui intacto. Ninguém mexe nas suas feridas, ninguém toca no motivo pelo qual seus amigos, colegas e “rolos”, que são pessoas reais, não conceitos figurativos, acham que você precisa de ajuda. Então, me diga: o que essas pessoas reais dizem que te machuca tanto a ponto de você precisar vir aqui se defender delas para um estranho?

Olhei para o espaço vazio entre nós dois. A lógica parecia uma linha de defesa sólida, mas ele tinha acabado de contorná-la. Senti uma súbita falta de ar, uma incapacidade de encontrar o termo técnico exato.

— Eu não sei — respondi, seco.

— Não sabe… ou não quer olhar para isso? — ele perguntou, olhando para o relógio de pulso dele e se levantando. — Tudo compreensível. Por hoje, o “não sei” é uma resposta honesta o suficiente. Até porque o nosso tempo de fato acabou agora. O bruto da nossa primeira sessão está aqui. Você estabeleceu suas defesas, eu marquei o território, e ficou claro que nenhum de nós dois vai ceder fácil. Até a semana que vem.