Ela chegou do trabalho mais cedo do que o habitual. Não havia um sorriso em seu rosto, mas alguma pequena chama de esperança em seu olhar…
Ela deixou a bolsa no braço do sofá e foi para o quarto. Acendeu a luz e, com calma e delicadeza, começou a escolher uma nova roupa. Jogou uma saia na cama e buscou duas ou três blusas prediletas. Combinou e recombinou, fez e desfez até achar o tom ideal…
Ligou o som e escolheu uma lista de músicas alegres e otimistas, que falavam desde a descoberta de sentimentos até aquelas que faziam sua imaginação borbulhar de imagens e lugares desconhecidos. Colocou o celular para carregar e verificou que nada novo havia nele.
Fez o jantar com o capricho inevitável. Escolheu bem os temperos e combinou novos truques que havia aprendido em suas leituras por sites de culinária. Teve todo o cuidado com o tempo de cozimento e com a arrumação do prato antes de colocá-lo no forno para finalizar e gratinar.
Foi para o banho mentalizando os minutos para não se atrasar e passar do ponto do gratinado. Cantarolando o refrão, dançava no chuveiro com palmas alegres no ritmo da água e da música. Nunca foi boa cantora e preferia cantar em silêncio, apenas imitando os jeitos e trejeitos dos artistas de quem gostava.
Terminado o banho, preferiu uma maquiagem leve e com cores suaves, ressaltando seus olhos e lábios. Vestiu sua combinação de roupa e, como toda mulher à frente do espelho, não ficou completamente satisfeita com o resultado, mas não seria isso que tiraria sua alegria evidente.
O cheiro do jantar já tomava timidamente conta do apartamento, e ela tratou logo de terminar de se arrumar e montar a mesa. Escolheu pratos novos e coloridos que havia comprado na semana anterior, montou a mesa para dois e serviu vinho para si. Foi para a cozinha, retirou o prato que já borbulhava com o queijo gratinado, exatamente como havia planejado. Deixou o prato descansar um pouco e foi checar o celular mais uma vez enquanto terminava o vinho. Nada novo. Mesmas mensagens anteriores, mesmos e-mails de antes do trabalho… Ele não havia respondido.
Serviu o jantar e não desarrumou em nada a outra ponta da mesa. “Talvez da próxima vez ele venha, e preciso estar preparada!”, enfim suspirou. Jantou em silêncio. Não havia tristeza pela solidão ou pela falta de resposta. Ela tinha esperança de que um dia ele tocasse a campainha para dar oi, conhecer seu apartamento, ouvir suas histórias. Por isso se arrumava todas as noites, com esperança. Queria estar pronta. Queria estar bela e não ser pega de surpresa com pedidos ou admirações. Esse era seu sonho e guardava sempre um ensinamento de criança em suas preces: “Talvez demore, mas será bem-vindo quando quiser chegar.”
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