Desde antes de fazer o Caminho de Santiago fui dessas pessoas que acreditava que o Caminho deve ser feito sozinho…

Muito mais além do fato que cada pessoa tem um ritmo e as vezes uma pessoa acaba “atrapalhando” os passos dos demais, acreditava (e continuo firme e forte na minha opinião) que a experiência de caminhar solitariamente por tantos quilômetros e por tantos dias é um presente que não devemos menosprezar. Acredito que essa solidão forçada, é forte o suficiente para que te conecte com o seu propósito e que você reflita da melhor maneira possível também os seus conflitos internos, angústias, pensamentos e medos. Talvez esse seja o principal “assunto” que você deva enfrentar durante o Caminho: os medos. Como disse anteriormente, meu maior receio era “completar” o Caminho, quando talvez para a maioria das pessoas seja a coisa mais banal existente. Mas, enfrentando, compreendendo suas origens, nuances e razões por existir, esse enfrentamento só te traz benefícios. É a famosa oportunidade de estar consigo em um ambiente propício à essa reflexão.

Obviamente, há pessoas que pensam diferente de mim – e sem julgamentos, pois acredito não existir “certo e errado” e muito menos “manual de instruções”. O Caminho é aberto a todos os tipos de pessoas, de planos e de ritmos. Mas por mais que nos esforcemos, há certos pontos e pensamentos que apenas a completa solidão é capaz de proporcionar e refletir perfeitamente. Indo um pouco mais além, é apenas com essa solidão que abrimos nossos olhos e enxergamos nossos pontos que sofremos por semanas (ou anos) sem saber. É uma oportunidade única de criar várias sessões terapêuticas para confrontar situações e reorganizar fatos. É o momento de colocar para fora as questões mal resolvidas, as angústias, as dúvidas e aproveitar aquele ambiente cósmico para que você mesmo possa caminhar por essas questões de forma leve e descobrir suas respostas. Pode até parecer um tema mais místico e incoerente, mas naquele ambiente você consegue “visualizar as situações” de outra perspectiva, mesmo estando você no centro da imagem. É como se você conseguisse sair do seu corpo e ter outra perspectiva de temas que, normalmente, você estava errado ou não contemplando todas as alternativas e opções.

Caminhei sozinho por dias completos. Não havia planejado encontrar ou conhecer pessoas no decorrer das etapas, assim os meus primeiros 5 dias de Caminho foram 100% sozinho. As vezes cruzava com outros peregrinos, saudava-os brevemente e seguíamos nossos passos de acordo com nossos ritmos. Inconscientemente fui criando essa “adoração” pela reflexão que a solidão me convidava. Acredito que o meu propósito automaticamente me fazia refletir sobre os pontos que deveria agradecer. Nessa terapia forçada e livre, refletia sobre a vida como um todo. De passado ao futuro. Pensava nas decisões tomadas e seus resultados, revendo os problemas e tentando mudar a perspectiva para encontrar os pontos positivos, relembrar situações vividas e como haviam me transformado e até retomar diálogos para planejar novos caminhos após o Caminho – santa redundância que é salva pela licença poética.

Existem ditados que corroboram minha visão. Pode ser que “cabeça vazia, oficina do diabo” ou até mesmo “antes só que mal acompanhado”. Porém, meu ponto predileto para provar minha preleção por essa solidão é: Podemos sentir a maior das solidões quando estamos rodeados de gente… E é a mais pura verdade. Quando fazemos o Caminho, tentamos de qualquer maneira cumprir nossos objetivos e concluir nossas etapas, mas sem querer o momento mais importante, e impactante de toda a jornada, é o momento onde nos conectamos com nossa essência. Nos conectamos com o nosso verdadeiro eu. E essa conexão, por si só explicável e poderosíssima, só existe quando nos conhecemos e nos “encontramos”. Ali, criamos uma amizade, uma irmandade invisível, com algo muito maior e cósmico que, mesmo fora de qualquer religião, conseguimos entender o quão poderoso somos e o quanto nós podemos concluir todos nossos objetivos sozinhos.

Claro que ter companhia, ter com quem conversar e compartilhar uma piada, um momento, uma risada e uma vitória é de suma importância e eu não estou aqui para dizer o contrário ou pregar uma vida “anti-social”, individualista e solitária. Como comentei, caminhei durante alguns dias com boas companhias que aliviaram um pouco as horas e altas quilometragens das etapas. Mas o meu ponto é que existem momentos onde devemos ser nossas próprias companhias, nossos próprios mentores e nossas próprias mãos de apoio. Ninguém, além de nós, sabe o que necessitamos e quanto necessitamos – e nada disso é egoísmo ou egocentrismo. É apenas uma forma racional de auto-cuidado e de saber aproveitar esses momentos da melhor forma.