Como comentei há alguns capítulos, o meu momento predileto do dia era vivenciar o “despertar da vida com os primeiros raios de sol”…
Sem perceber, esse passou a ser o maior combustível que me fazia levantar e iniciar minha jornada nas altas madrugadas do Caminho…
Desde os primeiros dias, percebi que havia algo profundamente transformador em começar a andar antes mesmo de o céu mostrar sinais de luz. Era como se eu estivesse entrando em uma dimensão paralela, onde o mundo ainda dormia, e eu, silenciosamente, testemunhava o milagre diário da vida começando novamente. Virou meu ritual sagrado a partir da segunda etapa: sair cedo, para ficar imerso na escuridão, guiado apenas pelo som dos meus próprios passos e pela expectativa de ver o dia nascer.
Mesmo quando caminhava ao lado de alguém, fazia questão de manter aquele instante em silêncio, como se fosse uma prece compartilhada. Aquela junção entre silêncio e vida, era de uma beleza única e indescritível. Porque era nítido que havia muito mais englobando aquele momento, mas era como se tudo estivesse adormecido e apenas eu era parte ativa daquele universo. O caminho escuro, quase invisível, diante de mim, a respiração ofegante sendo o único som presente, junto do farfalhar ocasional das folhas, criavam um cenário de introspecção profunda. Era possível escutar o coração batendo, quase como se ele também estivesse tentando entender o que acontecia ao redor. Tudo parecia suspenso. Um lugar entre mundos. Como nos filmes que retratam terras esquecidas, envoltas por névoa, mistério e memórias antigas. E, no entanto, ali, não havia medo. Havia paz. Eu sabia que estava cercado de vida – insetos, animais, aves, plantas – mas todos pareciam, por respeito ou magia, aguardar o momento certo de se manifestar. O silêncio era tão intenso que chegava a ter peso, como se fosse uma camada invisível envolvendo tudo, inclusive meus pensamentos.
Quando chegava a um bosque mais fechado ou a uma trilha solitária, instintivamente parava. Apagava a lanterna, sentava em alguma pedra, tomava um gole de água e apenas observava. Ou melhor, sentia. Tentava encontrar qualquer sinal sonoro, qualquer sussurro do mundo ao redor. Em muitos momentos, era como estar dentro de uma bolha de tempo, onde nada mais existia além daquele exato instante. O silêncio parecia falar, e eu o escutava. Era como se ele me dissesse que não havia pressa, que estava tudo certo em apenas estar ali, presente.
E então, quase sem perceber, os primeiros brilhos de sol surgiam no horizonte – tímidos, hesitantes, muitas vezes escondidos atrás das montanhas. Mas bastava um feixe, um toque de luz, e tudo mudava. O mundo acordava. O som dos insetos, o bater de asas, o movimento das árvores respondendo ao vento… tudo voltava à vida, como se alguém tivesse acionado um interruptor invisível. E eu seguia. Mais leve, mais inteiro, mais próximo de mim mesmo.
Aqueles momentos silenciosos eram, sem dúvida, os capítulos mais terapêuticos da minha jornada. Ali, eu reencontrava a mim mesmo a cada passo.
Com o tempo, aprendi a valorizar ainda mais esses momentos de recolhimento, como se fossem encontros marcados comigo mesmo — encontros nos quais nenhuma palavra era necessária, porque o silêncio dizia tudo. Era ali, entre o escuro e a primeira luz, que minhas dúvidas perdiam força e minhas certezas se desenhavam com mais nitidez. Caminhar sem ruído externo me forçava a escutar o que vinha de dentro: pensamentos antigos, lembranças esquecidas, decisões mal resolvidas. Tudo emergia com força surpreendente. E curiosamente, mesmo nos dias mais difíceis, em que o corpo doía ou a alma pesava, aquele instante calado trazia alívio, como se o Caminho me sussurrasse: “Continua, tá tudo bem.” Essa cumplicidade com o silêncio, esse pacto secreto com o tempo e com a natureza, me transformou mais do que qualquer conversa ou conselho.
Ali, na companhia da madrugada e do som contido da vida ao redor, eu era só eu — e já era mais do que o suficiente…
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