A avalanche se aproximava, mas ignorávamos os sinais e seus alertas sonoros. Era como se estivéssemos surfando em um desespero de liberdade…

Existiam as incertezas, as promessas fantasiadas e até mesmo o acre sabor da desilusão no cenário vivido. Eram companheiros. Eram mais que amigos. Eram como parte do nosso sangue compartilhado. Mas ninguém ousava enxergar além daquela fumaça alucinógena. Era um entorpecente caro e valioso para aqueles dias. Era nosso ópio filosofal, em uma época em que não existiam rimas externas aos nossos desejos.

Mas todos fomos soterrados por aquela avalanche. Sem nenhum poder de reação, questionamos se era uma tragédia natural. Questionamos se não foi um azar do destino, justo quando estávamos prontos para criar novos planos que não sairiam do papel. Questionamos se tudo não foi obra de um acaso irônico e nocivo, porque pensávamos ser os mais bem preparados da nossa bolha…

Mas éramos cegos. Éramos os mais fora da curva quando tudo era uma reta uniforme. Éramos a essência perdida, quando tudo já estava classificado e juramentado. Éramos os teimosos que conceituavam uma escuridão profética, quando todo o mundo já havia descoberto o sol libertador. E por tudo isso é que foi tarde demais…