Era uma carta aberta manuscrita com um tom melancólico, mas guardando uma emoção característica de quem realmente amava intensamente…
Eram versos que contavam os momentos de uma vida quase completa, iniciando na ingenuidade do novo e indo até o cansaço intenso de quando a rotina era vencedora. Nas suas linhas transbordavam ensinamentos, frustrações, alegrias, ilusões, desilusões, planos, vitórias e esquecimentos. Sem data ou trajetória temporal. Apenas situações e seus desdobramentos, que se transcreviam com uma leveza certa, mas com um toque pesado nos temas ácidos e importantes.
Era nítido que outra estrada se abria no horizonte. Era nítido que aquela bagagem sentimental iria seguir como companheira experiente. A carta tinha mais a agradecer do que a aborrecer. A carta foi escrita para relembrar e eternizar, nunca para apagar e esquecer.
O fato engraçado é que ela chegava apenas no terceiro parágrafo e terminava no meio de uma palavra cuja intenção não se conhecia. Era no meio de uma frase quase desconexa, mas que foi o cemitério daquela tormenta de sentimentos, agradecimentos e lembranças que talvez não tenham se materializado, enfim.
A carta ficou empoeirada por um tempo inexistente, dentro de uma gaveta naquela ruína que muitas crianças chamavam de mal-assombrada. Talvez o assombro mesmo tenha sido perceber que aquele adeus melancólico, escrito a próprio punho, nunca aconteceu, e aquela pobre alma se aprisionou dentro da sua eterna rotina, que tanto lhe pesava os olhos nas noites em que sonhava com a estrada prometida que cantava liberdade…
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