Ela se esforçou para sorrir, mas quase não conseguiu. Não havia cinco minutos que estava desabada em um choro devastador…

Ela carregava uma expressão na qual nada mais na Terra fazia sentido. Se lhe pedissem uma ordem cronológica dos fatos, um inventário da ruína, ela falharia. As ideias não se organizam quando o mundo desaba em velocidade feroz. Ela queria chorar novamente, mas suas forças mais internas cederam à derrota. Seus pensamentos bailavam a quilômetros dali, em um ritmo frenético, impossível de alcançar.

Ela chegou com uma bagagem de sonhos e planos. Pouco a pouco, eles foram se tornando realidade e rotina. Um a um. Era quase milagroso.

Mas o universo é um carrasco silencioso; não envia avisos, não acende faróis. De repente, a linha reta entortou. O sustento ruiu, o afeto traiu, o sangue dos seus adoeceu.

Em um dia, havia café morno, páginas de um livro e flores respirando na varanda. No dia seguinte, o lodo. Um revirar podre que causava náuseas só de lembrar.

Ela não aguentou o peso de uma realidade simultânea e saltou. Atirou-se em um vazio desconhecido e nunca imaginado. Ironicamente, sua alma clamava pelo impacto violento do chão, pelo fim da queda — mas o vazio revelou-se infinito. O fim nunca chegava.

E agora, ela estava ali. Sem bússola, sem norte, sem a faísca de luz que costuma desenhar os horizontes.

Ela estava sentada em frente ao mar – outra ironia, porque ela detestava o mar. Detestava a monotonia matemática das ondas, esse eterno ir e vir mecânico, a maré que sobe e desce como um relógio maldito. Mas ela estava em frente ao mar. Talvez estivesse caçando essa geometria toda para tentar ordenar o próprio caos. Mas o nada era a sua única resposta. Nada no momento seguinte. Nada no fim daquele dia. Nada no fim do seu caminho.

Ela ficou ali parada. Por dentro, o veredito já havia sido dado: estava morta.

O corpo, exausto, desabou em um sono sem sonhos. Despertou horas depois, quando o sol, com uma crueldade dourada, veio saudar sua face.

Ao sentir o calor da luz, ela tentou sorrir. Não conseguiu. Sem notar, as lágrimas já escorriam frias pelo rosto. Ela havia reaprendido a chorar, mas já não era capaz de sentir a própria dor.