A mescla de cheiros era algo que o enjoava mais frequentemente do que gostaria. Bastava dobrar a esquina e o cheiro de cloro o atingia como uma promessa falsa…
Era como se proclamasse a maior das verdades: dizia-lhe que algo estava limpo, ainda que o aspecto fosse asqueroso, como um verniz transparente sobre a podridão. Como uma cadeira molhada, mas completamente podre e quebrada pelo tempo de vida. Continuava e ainda cruzava com uma mulher apressada; o perfume doce demais fazia-o sentir como se fosse estapeado por um exagero fabricado — um golpe duro demais para começar o dia, mesmo que o dia ainda não tivesse realmente começado, nem o sol desse as caras por ali. Seguia adiante, e o odor ácido da urina subia forte das calçadas, impregnando-lhe as narinas até obrigá-lo a respirar curto, como quem não aguenta mais carregar o fardo invisível de existir em meio a tantos vestígios humanos. Recolhia o corpo dentro do próprio casulo, tentando resistir ao cerco invisível de uma cidade que cheirava à decomposição e à sobrevivência.
Havia dias em que pensava que os cheiros tinham vida própria — não se limitavam a ser partículas flutuantes, mas entidades urbanas que se infiltravam nas ruas como exércitos, conquistando pedaço por pedaço, com chacoalhões brutos e impondo a permanência a todo custo. Eram objetos e personagens que ganhavam vida, talvez fruto de uma alucinação perigosa que já lhe tomava o controle…
O cloro vinha com uma armadura branca, ilusoriamente protetora; o perfume doce, como uma serpente adornada de lantejoulas, sedutora e traiçoeira; a urina, crua e direta, sem metáforas, como um grito de desespero deixado nas esquinas.
Ele caminhava entre esses fantasmas aromáticos como quem atravessa fronteiras externas: cada passo exigia um pacto silencioso, uma rendição ou uma pequena guerra particular. Talvez fosse apenas o olfato exageradamente sensível — talvez algo mais — como se o mundo tivesse escolhido comunicar-se através dos odores que os outros ignoravam e, assim, o condenasse a um diálogo constante com aquilo que todos rejeitavam, fadando-o a sustentar a comunicação por tempo maior do que desejado.
Nesses trajetos, a cidade se revelava mais íntima do que deveria. Os grafites lhe pareciam orações malditas, os postes acendiam suas lâmpadas como sentinelas cansadas, talvez bravas por ele passar por ali enquanto dormiam apagados para encobrir as próprias ranhuras. Até os buracos no asfalto sussurravam histórias de quedas e tropeços. O cheiro não era apenas cheiro, mas lembrança e presságio. Entre tantas lembranças e presságios, ele começava a acreditar que sua cidade não existia fora de si — era ele quem a criava a cada passo, impregnando-a de sentidos que talvez não fossem partilhados com ninguém mais, sustentados por um sonho que criara décadas antes, como se fosse a maior perfeição existente no mundo conhecido.
Ainda assim, havia uma estranha beleza em tudo isso. A náusea que lhe corroía o estômago transformava-se em combustível para continuar. Cada odor, por mais cruel que fosse, tornava-se também uma marca de presença, uma prova de que a cidade pulsava, respirava — mesmo que respirasse mal e com ajuda de aparelhos, que ele era impedido de desligar, mantendo viva uma ligação que já não desejava. Ele sabia que estava fadado a ser o cartógrafo desses cheiros: um viajante de narinas abertas, mapeando territórios invisíveis. Quem sabe, um dia, pudesse escrever a história secreta da urbe a partir dos aromas que ninguém queria nomear.
Por ora, limitava-se a atravessar mais uma manhã, resistindo aos golpes invisíveis e, ao mesmo tempo, colhendo deles um poder silencioso — como se a própria náusea fosse também uma forma de pertencimento, de peso, de fartura cruel e de um amor indescritível por aquelas paisagens…
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