Ela escrevia um diário com a própria letra. Deixava as ideias fluírem por uma semana completa e assim revivia cada momento para detalhar perfeitamente todos os acontecimentos…
Quando perguntaram por que demorava tanto para contar suas andanças e momentos, ela sorria encabulada e mentia, dizendo que era para ter as memórias mais solidificadas e os eventos mais vivos na mente. Fazendo assim, as memórias sobreviveriam por um tempo maior, pois já eram parte de seus pensamentos. A mentira era bem mascarada e muitos achavam que a ideia era fenomenal. Mas a verdade era que ela não queria escrever as frustrações. Não queria contar nem reviver todos os momentos de sufoco e desilusão que vivia diariamente. Então, ela deixava tudo passar, a poeira baixar e secar suas lágrimas de frustração, para apenas manter as melhores lembranças.
Queria deixar um legado feliz porque já havia chorado demais, mesmo ainda não tendo chegado aos 35 anos de vida… Estremecia ao pensar que teria mais sofrimentos para ocultar nas próximas páginas ou nos próximos diários. Assim ela se refugiava nas lembranças vazias e felizes da semana passada, enquanto enxugava as lágrimas e se maquiava para disfarçar os olhos inchados do presente.
O batom cobria a palidez dos lábios e a máscara de cílios sustentava um olhar que parecia pronto para o mundo, embora desabasse por dentro. Ela fechou o caderno de capa de couro com um estalo suave. Um abafado som da sua própria censura. Quanta poesia havia no silêncio que ela escolhia registrar? O papel aceitava sua ficção feliz, mas o espelho da realidade… aquele espelho cruel guardava a crônica exata dos dias que ela insistia em apagar.
Na semana seguinte, ela não esperou o tempo passar. Algo a consumia muito mais do que a alegria falsa que tentava demonstrar. Pela primeira vez, a urgência e o grito falaram mais alto. Forçaram-na a encarar o que a maquiagem já não conseguia esconder. Pegou a caneta como se disso dependesse o ar que respirava. A tinta preta tocou o papel ainda úmido de uma lágrima que caiu antes do ponto final. Escreveu sobre o sufoco, sobre o medo dos trinta e tantos e sobre a solidão de vestir um sorriso que não lhe cabia. De se vestir de uma mentira que não a traduzia.
Ao terminar, percebeu que o papel não havia rasgado com o peso da sua tristeza. Pelo contrário, parecia acolhê-la. Parecia abraçá-la de tal maneira que ela encontrou ali o que buscava incansavelmente na vida: um ombro amigo. Olhou para o texto borrado, cru e dolorosamente real e se enxergou. Viu mais do que uma vida; viu que o texto pulsava e a definia perfeitamente. Não era um legado de felicidade intocável que ela tentou passar todo aquele tempo, mas sim, um legado de verdade…
Ao fechar o diário naquele dia, ela não sorriu para mascarar nada, porque não era mais necessário. Ela apenas respirou fundo, sentindo o peso leve de quem aceitou a própria história por inteiro, mesmo que fosse borrada e úmida pelas lágrimas que serviram de pausa para a sua leitura…
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