Para ele, a partida dela não foi um adeus; foi uma demolição controlada onde apenas ele estava dentro do edifício…

Ele nunca soube cultivar mentiras. Aquela sensação era demais para ele. Corrosiva até os ossos. Queimando mais que uma mistura química que as fórmulas não ensinavam, destruía sem ponto de retorno. O porto seguro, construído sabe-se lá com que energias e certezas, foi varrido por um vendaval de silêncios e desculpas esfarrapadas que ele não conseguiu decifrar a tempo.

Daí veio o caos. Os dias tornaram-se uma longa apneia social. Ele submergiu em um oceano de pensamentos que saltavam diante dos olhos assim que tentava fechá-los para dormir. Seus medos, antes adormecidos pela presença dela, afloraram como ervas daninhas espinhosas de um jardim abandonado. Ele observava as marcas físicas da sua agonia: o peso perdido, as olheiras que pareciam tatuagens de insônia, o tremor nas mãos ao segurar o copo d’água.

Ele, que sempre teve uma estranha fascinação por contemplar cenários pós-caos, onde poetizava seus martírios e os transformava em bálsamos, viu-se completamente perdido naquele papel duplo de observador e escombro, na mesma pele ressecada de impurezas.

Não conseguia dormir sem que o fantasma dela ocupasse o lado vazio da cama, sussurrando promessas que agora soavam como piadas de mau gosto. Pensou em se entregar à inércia de quem perdeu a bússola, mas uma teimosia ancestral o mantinha de pé. Lembrava-se de que toda tempestade tem seu fim, mesmo que o fim significasse o silêncio absoluto de quando o vento para de soprar e o barco da vida fica à deriva de um destino que já não existe mais.

Sentia que cada conversa que tiveram nos últimos meses era uma peça de um quebra-cabeça que ela havia montado apenas para largar incompleto e sem definição. Sua insegurança, que já era latente devido a mudanças físicas e sentimentais que vinha atravessando, tornou-se sua única companhia constante. Sentia-se um estranho na própria vida, um figurante de um filme cujo roteiro não compreendia mais… Ou melhor, um filme no qual já não se encaixava.

Cansou de esperar depois de um tempo que pareceu durar décadas. Mal lembrava como era o sol de antes, outro efeito colateral daquela cidade constantemente cinza. Forçou-se a sair para provar a si mesmo que ainda sabia caminhar e tropeçar nos acasos de que, antes, achava graça. Precisava que o mundo exterior fosse tão caótico quanto o seu interior. Precisava de uma ebulição que lavasse a poeira tatuada em seu corpo. No seu coração. Na sua alma. Na sua vida…

Precisava de uma guerra de barulhos. Uma guerra de desejos incontroláveis e alucinógenos. Precisava de uma anulação completa, para que o susto da urgência o trouxesse de volta ao mapa abandonado. Precisava do sangue escorrendo e do suor no rosto quando o inevitável da derrota se transforma em salvação.

Naquela quarta-feira cinzenta, calçou a sua melhor justificativa e saiu sem rumo. Como sempre, o frio o saudou na primeira esquina, e ele sentiu aquele desconforto como uma prova de que ainda estava vivo. Bebeu suas angústias, brindou às incoerências, saudou todos os pesadelos e criou piadas com as doses de ironia que encontrou nos cacos dos seus bolsos.

Uma voz desconhecida em sua mente o lembrou de que precisava alimentar também a fome física. Mal podendo falar, balbuciou alguma coisa e saiu com uma pizza barata nas mãos. Cambaleou de volta, mal encontrando o caminho da sua rotina, os olhos baixos, protegendo-se da chuva miúda e da cidade que ainda se recusava a lhe dar as boas-vindas…